Desafetos : A música do Universo

Desafetos


"Onde há predisposição para antipatia jamais faltará motivo."(Jane Austen) 

Não adianta, a primeira impressão permanece. Pitacos e intervenções não têm vez. Quando a antipatia é mútua, nem santo ajuda. Há quem diga que desafetos são coisa de alma, de vidas passadas. Bom, não sei nada sobre isso. Acho que cada um tem muito a dizer sobre sua própria experiência. Eu já escutei várias histórias, mas uma delas abre uma perspectiva singular sobre o assunto.

Era uma situação comum, uma rodinha de marias. 
Cris estava ali como namorada do filho, que junto com a mãe e a irmã fofocavam animadamente sobre a vida alheia. Falavam das primas, das vizinhas... Cris limitava-se a acompanhar e reagir ao ritmo da conversa. Eis que o irmão da fulaninha, se volta para a mãe e se sai com uma pérola, referindo-se à irmã ali presente: - E a Luísa, mãe, ela era bem safadinha, hem?! - O primeiro olhar foi para a irmã, depois voltou-se para Cris explicando: - Foi uma coleção de namorados. Minha irmã experimentou de tudo. Todas as cores. Sua voz foi diminuindo, assim só ela escutou as últimas palavras.

Isso fora dito em tom sarrista, e ambos caíram na risada.
Nessa, Cris percebeu que a irmã a fuzilava com o olhar, enquanto se afastava. Passando pela porta, ela os olhou uma última vez com raiva. Cris engasgou e pensou, ali mesmo, como as pessoas sempre surpreendem, para o bem ou para o mal. Ali estava alguém com uma aparência segura e feliz, que se orgulhava de seus feitos, mas que afinal, tinha seus demônios. Ela disfarçou o embaraço com um gole de café, percebendo, de soslaio, que a mãe também amarrara a cara. Bom, pelo menos a velhota olhava o alvo certo, o filho, e  foi logo replicando que ele estava enganado, se confundindo e, que, muito pelo contrário, Luísa fora das irmãs a mais sossegadinha, 'a que menos trabalho dera'. Cris lembrou-se que não era a primeira vez que escutava o carinha referir-se à irmã usando o seu termo preferido para meninas boas de farra. 

Claro que, sendo da família, ele não tivera muito tato.
Primeiro falou para a mãe, mas a agravante foi a presença da namorada. Uma estranha tomando conhecimento de segredos de família. Era fato que aquela família gostava de fazer pose de gente exemplar. Depois havia aquela aura de religião em volta, com agradecimentos a Deus, a torto e a direito e muita reza em público. Para Cris, fora daquelas situações hilárias, que não se consegue evitar tirar uma casquinha. Afinal era um ambiente onde rolava muita religião e pouca fé, muita pretensão e pouca coerência, muito preconceito e pouco respeito, muito juízo de valor da vida alheia e falsa dignidade. Entretanto as três filhas casaram grávidas e o pai... Bom, paremos por aqui. 

Cris não estava nem aí para as ′safadinhas′ de plantão. Por ela, ofereçam e deiam de bandeja o  que for. Sempre defendera que cada um deve procurar o que o faz feliz. Agora coerência e responsabilidade era importante. Faça mas assuma, este era seu lema. E se alguém se sente enterrado em sujeira, não a jogue nos outros, faça um favor a si mesmo: limpe-a. Mas ali naquela hora o cheiro impregnara, e o filho percebeu que enfiara o pé na jaca. 

Cris sentiu-se o bode expiatório dos 'pecados' alheios, e, com o tempo, viu-se como o primeiro lugar da lista de desafetos de uma fulaninha, com quem poucas palavras trocara. O veneno a acompanhou por anos, materializando-se hoje em sorrizinhos azedos, olhares turvos, e um joguinho podre  entrelinhas. O olhar da talzinha arrepia. Ainda assim, Cris não consegue evitar, e confessa sua enorme curiosidade em saber,  até onde o veneno amarga, o que a fulana falou para o marido e as filhas, por quem ela é olhada como se fosse um ET.
E esta, hem?!

Freud certamente explicaria. 

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