Há coisas mais importantes na vida
Quem me conhece hoje me vê como uma pessoa quase normal. Consigo sentar à mesa,
conversar, trabalhar e focar nos meus projetos. Mas nem sempre foi assim. Durante a maior parte da minha vida, eu travei uma batalha silenciosa, exaustiva e invisível contra o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o TOC.
conversar, trabalhar e focar nos meus projetos. Mas nem sempre foi assim. Durante a maior parte da minha vida, eu travei uma batalha silenciosa, exaustiva e invisível contra o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o TOC.
Para quem está de fora, o TOC muitas vezes é confundido com uma simples mania de limpeza ou organização. Mas quem vive na pele sabe o desgaste que é. Significa estar de joelhos, à meia-noite, esfregando uma mancha invisível no chão enquanto o corpo clama por descanso. Significa carregar um "kit de sobrevivência" para limpar banheiros de restaurantes antes que meus três filhos pudessem entrar, com medo de uma contaminação que só existia na minha cabeça. Era uma vida cansativa, boa parte dela dividida entre três filhos, trabalho, faculdade e rituais que pareciam nunca ter fim.
Eu acreditava piamente que ninguém conseguia limpar as coisas direito além de mim. Mesmo quando pagava alguém para me ajudar, a ansiedade falava mais alto e, assim que a pessoa ia embora, eu refazia parte do serviço. Gastava energia, dinheiro e sanidade tentando controlar o incontrolável.
Até que, já passando dos meus 40 anos, um encontro despretensioso mudou a minha rota para sempre.
Fui com a minha mãe visitar uma amiga sua, a Dona Sônia. Ela era uma senhora japonesa de uma serenidade tocante que, na época, enfrentava uma batalha dura contra o câncer. Enquanto conversávamos na sala, meus olhos bateram em uma bagunça no sofá. Minha mente deu aquele estalo familiar de aflição, e meu rosto deve ter denunciado o incômodo.
Dona Sônia, com aquele olhar tranquilo de quem tinha urgência apenas de viver o que importava, olhou para mim e disse suavemente:
— Carla, há coisas mais importantes na vida.
Ela não estendeu o assunto. Apenas soltou aquela frase no ar e retomou o café com a minha mãe. Mas para mim, aquelas palavras soaram como um estrondo. Aquela mulher, encarando a brevidade da vida de frente, estava me dando uma lição de perspectiva que eu demoraria anos para digerir por completo. Aquela frase virou o meu mantra. Toda vez que o impulso de limpar vinha, eu me ordenava internamente: "Carla, tem coisa mais importante". E, aos poucos, fui aprendendo a frear.
Hoje, o impulso de controlar tudo ainda tenta dar as caras de vez em quando. A diferença é
que aprendi a não lutar contra ele com força bruta, mas sim com estratégia e carinho. Quando sinto aquela aflição crescer, sento no computador e desvio o foco. Entro no YouTube, procuro um vídeo que capture a minha atenção por alguns minutos e deixo a poeira da ansiedade baixar. Só depois, com a mente calma, começo a trabalhar. Aprendi a vencer o TOC pelo cansaço e pela distração.
que aprendi a não lutar contra ele com força bruta, mas sim com estratégia e carinho. Quando sinto aquela aflição crescer, sento no computador e desvio o foco. Entro no YouTube, procuro um vídeo que capture a minha atenção por alguns minutos e deixo a poeira da ansiedade baixar. Só depois, com a mente calma, começo a trabalhar. Aprendi a vencer o TOC pelo cansaço e pela distração.
Mas a maior prova de que as palavras da Dona Sônia se enraizaram em mim acontece a cada quinze dias, em dois sábados por mês. É quando a Du vem me ajudar na limpeza.
A Du tem a minha idade, tem um emprego fixo durante a semana e vem à minha casa porque gosta muito de mim. Eu a busco às sete da manhã e a levo de volta só depois que o sol se põe, porque ela faz questão de fazer o serviço completo. Eu a pago muito bem, muito acima do mercado, mas a verdade é que o valor financeiro é o que menos importa nessa troca.
Nem sempre ela limpa tudo perfeitamente, mas ela se esforça tanto que eu nunca disse uma única palavra. Nós tomamos café juntas, conversamos sobre nossos filhos e compartilhamos a vida. E foi pensando nessa nossa relação que uma ficha muito importante caiu para mim: por puro respeito e gratidão à Du, eu me proíbo de refazer qualquer limpeza.
Se no passado o meu TOC me dizia que ninguém fazia direito e me obrigava a trabalhar em dobro, hoje o meu afeto pela Du é muito maior do que qualquer mania. O carinho e o respeito humano foram capazes de calar a voz do transtorno.
A Dona Sônia partiu, levada pelo câncer, mas a semente que ela plantou na minha sala de estar continua dando frutos. Ela tinha razão. Há coisas infinitamente mais importantes na vida do que um sofá perfeitamente alinhado ou um chão sem manchas. Importante é o café compartilhado, o respeito por quem caminha ao nosso lado e a paz de espírito que a gente conquista quando finalmente decide soltar o controle.




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