Liberdade – o vôo dos esclarecidos (os verdadeiros escolhidos) : A música do Universo

Liberdade – o vôo dos esclarecidos (os verdadeiros escolhidos)

A única lei verdadeira é aquela que conduz à liberdadeFernão Capelo Gaivota

O senso comum do termo liberdade está ligado a política e cidadania. Em termos práticos liberdade tem a ver principalmente com independência financeira, mas além de ser questionável todo esse conceito, tenho para mim que a verdadeira liberdade possui um sentido bem mais profundo.

Somos produto de todas as experiências vividas, lembranças boas e ruins que causam sofrimento, mágoas, traumas que fragilizam, seguem e guiam pela vida, colocando os mais debilitados em situações e ou relacionamentos deprimentes potencializados quando se vive debaixo do mesmo teto, ainda que haja sentimentos românticos, laços familiares ou de amizade envolvidos. Para além da hierarquia das relações familiares é, sobretudo o choque de egos que origina os atritos, o abuso de poder e uma série de distúrbios individuais que podem criar vítimas e algozes em todo o tipo de lar e relação.

No papel de vítima, indivíduos vivem infelizes, em situações, muitas vezes, de violência psicológica e física uma vida inteira sem se darem conta de que elas mesmas concederam esse poder a terceiros. Curvaram-se à primeira exigência, à primeira agressão, até que ficaram presos num ciclo ininterrupto e doentio, deixando a auto-estima resvalar a ponto de viverem conformados. Pior! Acharem-se merecedores de sua cruz, um karma a arrastar pela vida.

A melancolia pode ser viciante, a porta para a doença... Sim, porque a alma é o alicerce do corpo e a tristeza leva ao abandono do próprio ser, da própria vida. O indivíduo embrenha-se num labirinto de pensamentos, emoções corrosivas e medos esdrúxulos, em companhias sombrias e mórbidas.

Convencidas da inevitabilidade da infelicidade estas pessoas tornam-se reféns da própria mente enredam-se em teias imaginárias, caminham por uma poluição mental aleatória e escura sem conseguirem enxergar a luz. É como que uma punição, um flagelo dos sentidos, a entrega à loucura, uma auto-condenação à morte. Esta a verdadeira prisão.

Iludem-se os que pensam que bandidos e assassinos são castigados quando condenados ao cativeiro ou à morte. Tirando a covardia, falsos arrependimentos e o resgate de umas poucas consciências, estes indivíduos zombam da sociedade. Com as mentes presas a conceitos deturpados, necessitariam de tratamentos radicais, de uma reprogramação de seus códigos de conduta para se reintegrarem à sociedade. Sem isso serão sempre bandidos, mentes psicóticas, animais selvagens enjaulados à força, sedentos de liberdade para retomarem suas atividades sanguinárias com maior ímpeto, raiva e adrenalina.

Entretanto o instinto de sobrevivência pulsa no ser humano e é assim que dentro dele mesmo encontra a salvação. O processo pode ser longo, individual, mas quando se resgata a própria mente e se reergue da escuridão, o espírito retorna fortalecido, com maior lucidez e compreensão do seu ser, pronto para retomar as rédeas da sua vida, virar a página, mudar o cenário, negar ou aquiescer quando lhe convém ao invés do amém robotizado do antigo farrapo humano.

No dia em que este sobrevivente de um holocausto mental fala para seu algoz “Desculpe, mas já faz um tempo que nada do que você fala ou faz me atinge” ele conquista definitivamente sua independência, a suprema liberdade. Perceba que isto é dito de forma tranqüila, sem arrogância, sem drama, sem altercação da voz. A serenidade pura e simples de um iluminado, alguém que conheceu o gosto da liberdade genuína.

A libertação eleva em todos os sentidos, a caixa torácica se solta e parece ganhar amplitude, o ar circula livre, uma simples aspiração e expiração da liberdade, um adeus à dor peitoral. A página é virada não por motivo de vingança, porque dívidas foram pagas, culpas e desculpas confessadas, mas porque se mudou a percepção.

Um processo de sofrimento e auto-descobertas levou enfim ao entendimento que os outros e as situações só nos atingem na medida em que deixamos, que abrimos mão do controle de nossa vida. E por isso devemos pedir desculpas porque assim como nos entregamos ao outro para que usufrua de nossos pontos fracos, também nós exploramos a fraqueza alheia, porque a fragilidade da natureza humana tem inúmeras facetas, tentações capitais e prazeres indeléveis, colocando predadores e presas numa relação mútua, individual e reversa de culpados e inocentes, anjos e demônios.

É pela compreensão que alçamos vôo, que doamos genuinamente com desapego, e atingimos a espontaneidade serena para circular e agir num mundo que podemos criar com as cores que escolhermos, permitindo ao outro manifestar-se por sua vez, somando experiências e colhendo sabedoria para usufruir da liberdade da capacidade de amar e doar sem nada exigir – apenas evoluindo, nossa maior missão.

Fonte de inspiração:
Livro Fernão Capelo Gaivota
Fernão Capelo Gaivota (Download)
Filme “Jonathan Livingston Seagull” (Título original) by Richard Bach

1 comentários :

Yolanda Hollaender disse...

Quanta profundidade nesta abordagem sobre o comportamento humano, amiga Carla!
Concordo plenamente que cada um de nós tem mesmo a condição de controlar nossas próprias vidas, sem que outros nos atinjam - isso é experiência e maturidade.
Obrigada por compartilhar.
Meu afetuoso abraço,
Yolanda

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