O tamanho da dor : A música do Universo

O tamanho da dor

- "O homem que teme o sofrimento já está sofrendo pelo que teme."
O massagista cego
pulitzer-1994_KevinCarterUma antiga lenda chinesa fala de uma mãe que teve seu único filho morto e na sua dor ela questionou o mestre “Que orações ou encantamentos mágicos dispões para trazer de volta o meu filho?”.
- “Traz-me um grão de mostarda de um lar que jamais conheceu a tristeza e o usaremos para expulsar a tristeza de tua vida.” -  Respondeu compadecido o mestre.

O problema é que a dor dos outros todos agüentamos, difícil é suportar a própria. A dor da alma é variável, como a dor física uns sentem mais, outros menos. Uns choram uma noite inteira e no dia seguinte tomam um banho e seguem com a vida até que a dor se dilui nos acontecimentos vindouros, nesse exaurir inexorável que é a vida. Outros entram num ciclo de tristeza e ali permanecem por um bom tempo ou para sempre. É a lei da sobrevivência na selva de pedra. O mundo não pára porque tem gente morrendo de fome, crianças sendo exploradas sexualmente, guerras acontecendo, a mãe de alguém morrendo de câncer, um pai de família desesperado porque perdeu o emprego... É uma dinâmica cruel. The show must go on.

O sofrimento é individual e solitário. Por maior que seja a solidariedade não dá para repartir a dor. Tem quem questione Deus “O que fiz para merecer isto?” Lembremos das oportunas palavras de Jesus. Ele afirmou que o Pai “faz nascer o sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mat. 5:45). Portanto, assim como a felicidade o sofrimento é democrático, não escolhe ricos nem pobres, que o diga o martirizado Jó¹. Mas, reflitamos... Será mesmo que tem o dedinho do todo poderoso na nossa vidinha? Deus aponta aleatoriamente seu dedão onipotente para algum coitado aqui na terra, ou será que se diverte em algum cassino celeste jogando dados divinos? Pior! Acorda indisposto, chateado porque São Pedro anda fazendo economia da água... Brincadeiras à parte... Observemos que se coisas ruins acontecem a gente boa e coisas boas acontecem a gente ruim, quem pode afirmar que o 'homem' lá de cima tem interferência no sofrimento humano?

Existe a crença do mundo justo resumida na premissa de que “cada um tem o que merece e cada um merece o que tem”. Ela está ligada à lógica de causa-efeito². Trata-se de uma forma defensiva de dar significado ao sofrimento e por tabela à existência humana relacionando o ato com o efeito “Colhes o que semeias”. Seria como que um ardil para fazer vista grossa ao sofrimento alheio. Mas essa aparente indiferença não está ligada a desumanidade, e sim a auto-preservação, uma estratégia de sobrevivência num mundo cão. Um seguir com a vida sem se deixar afetar. Como uma vacina que, no entanto, não contempla a todos.

Certas pessoas são tão sensíveis que vivem deprimidas, com o pensamento diário no sofrimento dos outros, deixando-se afetar de tal forma que caem numa desesperança na humanidade, num desencantamento doloroso. Elas têm uma expressão de sofrimento como se carregassem as dores de todos. Vivem como que abandonados num campo de batalha, esperando a morte. Umas se afogam em vícios, outras passam a vida enxugando lágrimas infindáveis e tem um outro grupo que simplesmente desiste da vida, encontrando no suicídio uma forma de acabar com a infinita dor. 

Por outro lado, nesse mundo distante do fome zero, todos têm sede de alguma coisa. Sede de amor, de estar na moda, de fama, de riquezas... Todos encontram algum foco de tristeza, por mais insignificante que seja - porque têm ou não têm ou porque perderam. É evidente que, no que se refere a ser humano, o sofrimento é uma constante e encontra expressão no menor fato. Não existem dores menos ou mais dolorosas. Aliás nada na dor é matemática. O sofrimento gerado pela perda de um filho pode ser tão forte quanto a perda do prêmio, do emprego, do namorado... Não há limites. Ainda que haja um prenúncio de egoísmo nesta evidência, tudo é perda, tudo é ausência, tudo é falta e tudo tem a ver com valores, força de caráter, vulnerabilidade - a forma de lidar com o infortúnio.

Causa e efeito, objetividade e subjetividade, dor e sofrimento se entrelaçam e se amparam. É um dar de beber à dor³ contínuo, como canta a fadista. Mania de sofrer? E agora José? Todos encontram argumentos para achar a sua a mais pungente das dores, mas felizmente nada dura para sempre e reza o ditado que a dor é proporcional à força de cada um – Deus dá a coberta conforme o frio. Seja como for, sob o ponto de vista do sofredor, não há consolo nem alívio para o sofrimento. Palavras de conforto passam batido pela alma  torturada.

A lenda que deu início a este artigo tem um final feliz. A mãe amargurada saiu pelo mundo. Em sua busca envolveu-se tanto em amenizar a dor das outras pessoas, que se esqueceu do pedido do mestre sem perceber que expulsara a tristeza de sua alma. Talvez este seja então o melhor caminho para curar a  própria dor, sair do seu casulo doloroso e cuidar das dores dos outros. Visitar doentes abandonados em hospitais, crianças morrendo de câncer, famílias desesperadas na busca pelo filho desaparecido, idosos amargurados com a vida...

A forma de lidar, suportar, diminuir ou extirpar a dor é individual, mas a partilha e ou o espelho das experiências, pode ser um portal para entendermos o próximo, valorizarmos, sermos solidários e descobrirmos na empatia que não estamos sozinhos. Entre mortos e feridos todos podem ser salvos. Enfim!

¹Quando Tudo Dá Errado: O exemplo de Jó²Crença no mundo justo
³Vou dar de beber à dor
- Acima foto do blog "Analytical": guardo esta foto à muitos anos pois tudo a ela relacionado me impressionou e achei neste blog a história por trás dela que não deve ser esquecida jamais.
- Superinteressante: "E como dói"
Livros: 
Dica Literaria - "Por que Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas" Rabino Shaul Rosenblatt
                "Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas" Harold S. Kushner

"Mania de sofrer" Bel Cesar








"The show must go on" Queen (Tradução da música)


2 comentários :

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Carla, muito bonita sua mensagem. Realmente, quem nunca conheceu a dor?
Talvez a melhor maneira de lidarmos com a dor...é pensar um pouco na dor do próximo em detrimento da nossa. Ao diminuir a dor do outro, a nossa tb diminui, pois recebemos muita coisa boa de retorno

bjs e aproveito pra te desejar um excelente natal pra vc e os seus, com mta paz, amor e fraternidade.

Sissym disse...

Carla, concordo com vc, a melhor maneira de superar é partindo para ação, inclusive eu vejo que se estivermos fazendo o bem, aos poucos vamos curar as feridas.

Um feliz 2011 a voce e sua familia!

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