Sob a luz da sabedoria : A música do Universo

Sob a luz da sabedoria

"O valor de todo o conhecimento está no seu vínculo com as nossas necessidades, aspirações e ações; de outra forma, o conhecimento torna-se um simples lastro de memória, capaz apenas - como um navio que navega com demasiado peso - de diminuir a oscilação da vida quotidiana."(V. O. Kliutchevski )
"O conhecimento é o processo de acumular dados; a sabedoria reside na sua simplificação."(Martin H. Fischer )

Como muita gente, tenho a convicção de que ciência e religião têm que andar ali juntinhos, com uma só palavra para unir as duas. Difícil digerir tantos dogmas, mais difícil ainda ofensas, guerras e mortes em nome de Deus. Acho também que se psicologia fosse um benefício oferecido pela previdência social as pessoas seriam mais sãs e
tendo a filosofia como disciplina obrigatória na educação desde cedo, poderíamos chegar ao ideal da evolução (trata-se de um tema recorrente no meu blog e uma tese pela qual ergui a bandeira).

Estudei em colégio de freiras em Angola, país onde nasci e fui criada. Eram tempos de ditadura, o autoritarismo a bola da vez e as salas de aula laboratórios para professores, na maioria mulheres, testarem suas habilidades em tortura infantil. Crianças encolhiam-se silenciosas, como ratos assustados, cada um na esperança de passar despercebido. Nesse cenário de pesadelo, havia sempre um professor mais talentoso para assombrar os dias.

Posso dizer então que já fui um rato, e Madre Lígia uma talentosa algoz. Carma ruim mesmo era topar com ela pelos corredores do colégio, em dia de TPM. O diabo ficava à solta. Para as meninas  era um  nossa senhora nos acuda pois para Madre Lígia o diabo estava  na gente, então pau e vara pra expulsar o bicho.

A tentação de dar meia volta e sair em disparada era grande, mas eram tempos também em que se aprendia bem cedo técnicas de autocontrole. Os suplícios internos - o galope no peito, o tremor pelo corpo e a repentina vontade de urinar - precisavam ser camuflados em postura impecável. Passos curtos, silenciosos e fisionomia serena, pois ai de nós se aqueles olhinhos de sagüi farejassem algo suspeito. A voz e a vênia firmes “Bom dia, Madre Lígia”. Eram minutos de ansiedade em que, no meu caso, rezava "Oh, Deus, por favor, que ela não me pergunte a porcaria dos 10 mandamentos".

Acordar a fúria de Madre Lígia era como caminhar descalça sobre brasas. Ela rangia os dentes, espremia os olhos e coitada da "pecadora". As noites não eram muito diferentes. Acordava várias vezes com a sensação de escutar a voz arrepiante da freira gritando o meu nome. E nas férias quando finalmente eu conseguia dormir em paz, as aulas logo recomeçavam.

Era já adulta quando me livrei da voz de Madre Lígia  assombrando o meu sono. Ainda assim feições e nomes do passado se misturavam, mas a sua expressão de fúria permanecia nítida. Cresci com a sensação de que Madre Lígia me contagiara. Durante anos vivi com uma raiva contida, desconfiada até da própria sombra. Dissabores e desafetos que surgiam no caminho deixavam resquícios e a raiva que já me tirava a paz passou a me oprimir o peito.

A depressão era a fiel companheira. Um dia uma pessoa comentou que dava para sentir a minha tristeza. E não foi a única. Uma amiga de infância, que eu reencontrei já adulta, falou-me que sempre lembrava de mim como a garota do olhar triste. Era hora de sacudir a tristeza.

Acreditem, se não fossem os livros não teria sobrevivido à infância. Eu vivia entre idas e vindas de mundos reais e fantasistas, se um me tirava o ânimo, no outro o recuperava. Assim durante as aulas tediosas e inúteis de religião, eu galopava em tresloucadas caçadas e quando a presa era triunfantemente encurralada, descia elegantemente de meu puro sangue e me curvava para apreciar o espécime peludo, que me encarava com olhar aterrorizado e a feição estranhamente igual à de Madre Lígia.

Mas era durante as surras que eu mais sentia o gosto da vingança. Eu me via adulta, arrastando Madre Lígia pelos corredores, levantando suas estúpidas saias diante de todos e deixando seu traseiro queimando de tanta vergastada. Por isso quando percebi que estava na hora de encarar os fantasmas, não tive dúvidas que a leitura seria a porta da libertação, mas foi a filosofia que me impeliu para a luz.

5 comentários :

Antonio Regly disse...

Carla,

Estive lendo comentando alguns posts hoje, os quais marcaram minha segunda-feira e quando estou de saída deparo-me com mais este seu. Não dá pra sair sem dizer nada.

O que pude perceber nas minhas leituras de hoje - posts e comentários - é que temos nos libertado de muitos fantasmas quando escrevemos. Não estou falando de uma escrita simples, fundamentada em conceitos ou teorias, mas palavras escritas com o coração, muita dor, lágrimas, sofrimentos...
Compreendi bem o que escreveu sobre "guerras e mortes em nome de Deus", pois ainda que não tenha estado num campo de batalha - literalmente falando - já aconteceu comigo algumas situações em que pude ver que Deus não tinha nada a ver com aquilo, mesmo o assunto sendo entre dois pastores.
Minha libertação de fantasmas do passado tem sido conquistada por Cristo - não a religião - de quem tenho aprendido muitas coisas.

Sua história me faz ver que as muitas "madres Lígia" podem ser vencidas.

Abraço do amigo,

Antonio

CCMaia disse...

Obrigada pela visita, Antonio
Escrever é realmente uma boa forma de exorcizar fantasmas. Qto às madres Lígias, coitadas, eram empurradas para a vida religiosa sem ter qq vocação para o celibato.

arte-e-manhas-arte disse...

Olá Carla,

Muito interessante a tua narrativa. Viajei para outro tempo, não tão rígido (nem pouco mais ou menos) mas também com curiosas histórias. O tempo das irmãs Doroteias em Évora (Portugal). Eu costumo associar algum cepticismo que existe em mim, exactamente à irmã Carmela, nome de código, porque na realidade ela chamava-se Albertina. :)

Grande abraço
Luísa

CCMaia disse...

Ouvi falar das Irmãs Dorotéias, Luísa, qdo morei em Portugal, entre 76 e 80. Creio que também tinha em Angola. Acho até, senão me falha a memória, que a minha mãe ali estudou. Quanto ao nome, Madre Lígia, tenho a certeza q muita gente lembra-se dela. Com toda a certeza não foi apenas a minha vida q ela assombrou. Era fera mesmo, e nós o seu saco de pancadas. Obrigada pela visita.

Victor S. Gomez disse...

É muito bom poder colocar para fora todas as nossas angústias, daí podemos renascer vigorados. Bjs

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